Compartilhar faz parte do DNA dos Clowns. Há mais de três décadas essa tem sido a escolha que possibilita nos reinventarmos, trilhando sempre novos caminhos, seguindo o faro para os riscos e desejos que quase nunca são os óbvios. Encontrar novas e reeditar velhas parcerias, trocar com gente que admiramos e que nos faz bem estar perto, é o que mantém a beleza de sermos eternos aprendizes.
CÃO nasce no ano de 2008, quando conhecemos, em um festival na cidade de Salvador, um grupo pernambucano de nome curioso, formado por garotões cheios de vitalidade e brilho no olho, recém saídos da universidade. Não precisou de muito tempo para entendermos que se tratava de gente feita da mesma carne que nós, aquele povo louco e idealista de Teatro que éramos e seguimos sendo. Durante esses quase vinte anos que separam aquele primeiro encontro dessa estreia conjunta, muita água passou por baixo da ponte. Realizamos projetos juntos, nos encontramos inúmeras vezes em tantos lugares diferentes, sofremos com as agruras e celebramos a beleza que é manter Grupos de Teatro vivos e pulsantes em trabalhos continuados e cotidianos por décadas. Os moleques de Recife viraram referência do Teatro brasileiro, e da nossa parte o que era identificação virou também admiração. Os caminhos poéticos que, à uma vista mais superficial, pareciam nos afastar, foram buscar na afinidade ética o desejo de colocar num mesmo balaio todo esse acúmulo de mais de cinquenta anos – 32 nossos, 21 deles – para jogarmos juntos no espaço mais precioso e frágil do universo teatral, que é a criação, a sala de ensaio, aquele lugar que só dividimos com quem confiamos e gostamos muito.
Então nos deparamos com aquela questão que envolve todo início de processo: mas qual jogo vamos jogar juntos? Como o próprio Coro de CÃO diz, “se há uma dúvida no que fazer, mira no Shakespeare, porque ele é o caminho, a verdade e a luz!”. E lá fomos nós buscar a iluminação no bardo que batiza os Clowns e por quem o Magiluth também já transitou. As provocações do velho Bill em Coriolano, que apontavam para a luta de classes e para a importância do protagonismo popular nas disputas sociais, nos apontavam para as tantas urgências da contemporaneidade brasileira e latino-americana. Irresponsáveis Atrevidos como somos, e movidos pelos anseios comuns da nossa lida como grupos de Teatro brasileiros e nordestinos, ousamos reinventar o bardo inglês e tratar daquelas mesmas questões sobre um novo prisma, pensar na lida não apenas dos artistas, mas da camada mais invisibilizada desse cosmos teatral, que é quem está por trás de tudo e garante que aquilo que acontece sob a claridade dos refletores aconteça: a “graxa”, a “peãozada”, a galera da técnica, da produção. A partir desta classe, queremos chegar a todas/os nós, proletariado que se submete a tantas imposições arraigadas numa estrutura neo-liberal que se perpetua desde tempos coloniais e que parece não apontar nenhuma luz no fim do túnel para as relações desiguais e precarizadas que escancaram as feridas do falho e tardio capitalismo que pode tardar, mas nunca falha.
Em um processo de criação gerado nesses quase 300 km que separam Natal de Recife, nas casas dos dois grupos – com a generosa colaboração de outros dois coletivos, o Facetas (RN) e a Cênicas (PE), que também cederam seus espaços para que isso tudo acontecesse –, brincamos as duas brincadeiras, a “clownesca” e a “magiluthiana”, radicalizando as descobertas de tudo que nos aproxima e nos afasta, para chegar a esse resultado no qual – esperamos! – possa refletir os dois grupos juntos, sem homogeneizar esse encontro, mas trazendo à tona todos os traços que particularizam e identificam nossas histórias.
Tudo isso só pôde ser concretizado graças a mais um encontro inédito na trajetória dos Clowns: a parceria com o Centro Cultural Banco do Brasil, cuja crença nesse ajuntado entre dois grupos nordestinos possibilitou estarmos estreando essa obra num dos palcos mais importantes do Teatro brasileiro.
Que esse latido ecoe longe!